Eu tenho o cabelo crespo.
Usei ele assim até meus 11 anos por nunca ter aprendido a lidar com ele.
Comecei a alisar, fazer selante, progressivas, químicas e mais químicas. Sem nunca ter ouvido falar em qualquer cuidado caseiro essencial pro cabelo.
Nesse tempo meu cabelo só ficava bonito no dia que eu voltava do salão, nos outros ele quebrava, ficava seco, horroroso. Nem mesmo a cabeleireira tinha cuidado algum com o meu cabelo, tanto que, por descuido dela, ele caiu. Não caiu todo, mas reduziu muito na parte da frente. Eu tinha que dar meu jeito pra esconder aquilo.
Depois de quatro anos de química, eu parei de alisá-lo e passei a somente usar chapinha, fazia quase sempre no final de semana, pra durar a semana toda. Lembro que quando minha raiz estava crescendo, eu passava a mão no cachinho novo que estava se formando e achava uma graça. Um dia resolvi pegar uma mecha do meio da minha cabeça e cortar o cabelo danificado, deixando só aquele cachinho bonito. Eu continuei com a chapinha, mas toda vez que lavava o cabelo e o efeito dela acabava, eu cachinho estava ali e eu sempre sabia onde eles estava, tanto que diversas vezes fiquei brincando com ele até dormir.
Meses depois de completar 15 anos resolvi fazer com o cabelo todo o que havia feito com aquela mecha, que a propósito já estava maior. Até então eu não tinha ouvido falar de big chop, transição ou qualquer procedimento desse tipo: fiz o que tinha vontade de fazer, apenas com a cara e a coragem. Claro que não tive o apoio que gostaria, ninguém estava preparado pra ver meu cabelo como ele era sem toda a química, que já estava até clareando meu cabelo de tão danificado. Mesmo assim cortei. E não me arrependi. Muito pelo contrário: me arrependi de ter aplicado diversos produtos químicos no meu cabelo por anos, sem saber o mal que estava fazendo pra ele, me arrependi de não ter feito aquilo antes.
Meu cabelo foi crescendo, embora lentamente, mas cresceu. Logo comecei a ouvir que pessoas se inspiraram em mim para voltar aos cachos, e eu fiquei muito feliz, senti que havia feito algo bom, tanto em mim quanto para os outros.
Dois anos depois eu já estava acostumada a acordar e ver no espelho meu cabelo de um jeito que ninguém via: armado, com frizz, amassado. As pessoas apenas o viam depois de 30 a 40 minutos de arrumação, e para elas ele era sempre lindo.
Nessa época meu dia a dia era muito corrido: eu ficava quase 13 horas fora de casa para estudar e estagiar. Só tinha algum tempo de final de semana, e claro, isso refletiu no meu cabelo, que demandava muito tempo até ficar do jeito que eu gostaria. Minha paciência foi se esgotando, até que em maio de 2016 eu compareci a um acampamento que era realizado e composto majoritariamente de jovens por volta da minha idade. Algo que eu encontrei lá foram mulheres de cabelo curto e cabeça raspada. Eu fiquei deslumbrada e na hora quis fazer o mesmo. Mas claro que para decidir o que realmente faria demorei alguns meses.
No meio do ano resolvi que cortaria meu cabelo até mais curto do que ele estava quando eu tirei toda a química. Fui em uma cabeleireira aqui do bairro e mostrei uma foto de como queria o corte. Ela se assustou e sentiu muita pena de cortar. Perguntou várias vezes se eu tinha certeza e eu quis responder “desde maio”. No fim ela cortou, mas não soube finalizar como eu fazia de costume. Isso não foi problema. Chegando em casa eu fiz do jeitinho que eu queria. Ele estava curtíssimo e super fácil de cuidar. As hidratações eram muito rápidas, coisa que eu nem lembrava mais como era.
Muita gente quase chorou quando me viu com o cabelo daquele tamanho. Foi nesse momento que eu percebi como as pessoas eram apegadas ao meu cabelo, mesmo o cabelo sendo MEU e eu podendo fazer o que EU quiser com ele, até porque EU sabia o que era melhor para MIM no momento. Mas tudo bem.
Como a cabeleireira mesma disse, eu tirei férias do meu cabelo… por 6 meses. Acabou que eu comecei a enjoar do meu cabelo, até porque, querendo ou não, não dava pra fazer muita coisa com ele. Na verdade não dava pra fazer nada com ele além de lavar e hidratar. Resolvi pensar comigo: como eu iria resolver isso?
Isso já era o fim do terceiro ano e uma amiga minha estava passando pela transição. Ela colocou tranças e eu achei uma ótima ideia. Resolvi juntar um dinheiro e colocar também, inclusive na mesma cabeleireira que colocou no cabelo dela.
Foi caro. Foi muito caro. Mas ficou lindo. Me senti a pessoa mais bonita do mundo. Mas, como eu disse, era caro. Logo meu dinheiro iria acabar e eu não iria ter como recolocar aquilo. Resolvi aprender a trançar meu próprio cabelo. Depois de várias tentativas quase falhas, eu consegui. Com o tempo fui ficando cada vez melhor naquilo, e até pensei em fazer como uma profissão, mas não rolou.
Como nem todo são flores, depois de trançar meu cabelo por 1 ano e meio, eu também enjoei desse estilo. Eu tive vários tamanhos, de várias cores, vários materiais, mas recentemente cheguei em um ponto que não sabia mais o que inventar e decidi o que eu de 15 anos pós big chop e qualquer pessoa erroneamente apegada ao meu cabelo temia: alisar de novo. Dessa vez sabendo o que é hidratação, cronograma capilar, umectação e afins, portanto, não deixaria meu cabelo chegar naquele estado novamente, até porque a cabeleireira não é mais a mesma e, se depender de mim, nunca mais será.
Nessa trajetória eu percebi que muita gente vai encher seu saco porque eles simplesmente querem que você mantenha o SEU cabelo do jeito que ELES querem. Isso não faz sentido nenhum, mas é MUITO comum. Não seja essa pessoa. Até porque eu não pretendo parar de mudar meu cabelo sempre que eu puder. E esse é um dos sentimentos mais libertadores que existe.




